Review de Uncharted 4:
O Fim de um Ladrão - Quase cinco anos e uma geração de consolas
depois, a Naughty Dog cedeu aos fãs e aos
“pedidos” da Sony para lançar mais um 
capítulo na história de Nathan Drake.

Quase cinco anos e uma geração de consolas
depois, a Naughty Dog cedeu aos fãs e aos
“pedidos” da Sony para lançar mais um
capítulo na história de Nathan Drake.

Uncharted 3: Drake’s Deception, lançado no final de 2011, marcou o fim da trilogia mais memorável da Playstation 3 e de uma das aventuras mais consagradas da história dos videojogos. Esta foi uma das principais sagas que puxou a consola da Sony ao limite a nível de grafismo e jogabilidade, mas também pelos enredos e atuações que criaram novos patamares de storytelling.

O quarto episódio da saga e, já garantido pela empresa, o último episódio protagonizado por Nathan, é o primeiro que não se vê limitado pelo hardware da geração anterior de consolas e aponta para uma experiência com uma fasquia mais elevada a nível técnico.

Aqui, a developer americana que ficou famosa por jogos como Crash Bandicoot, Uncharted e The Last of Us, desenvolveu um jogo que leva a consola da Sony ao limite e tem tudo para se tornar um ícone na nova geração de consolas.

Um aventureiro reformado?

Nathan Drake tem um irmão. Este é o ponto que dá início a todo o enredo e ação de Uncharted 4: A Thief’s End – “O Fim de um Ladrão” na versão portuguesa. O rapaz que, até então, era um órfão solitário e que encontrava em Victor Sullivan (conhecido como Sully) uma figura paternal, despediu-se da vida de aventureiro para assentar com Elena Fisher, a repórter e companheira de aventuras que conheceu no primeiro episódio de Uncharted.

O primeiro capítulo da história é importantíssimo, não só como montra para os fãs da série sobre aquela que é a nova vida de Nathan, como para introduzir os novos jogadores a tudo o que o eterno aventureiro deixou para trás.

É um início estranho para um Uncharted. Habituados a ver paisagens exuberantes e variadas, de desertos áridos e secos a florestas tão cheias de vida e cor, esta sequência introdutória mundana, urbana e rotineira, poderia ser tão aborrecida quanto “claustrofóbica”. Não podíamos estar mais enganados.

Uncharted 4 é um hino ao storytelling digital

A representação gráfica (e que gráficos fenomenais) da vida de Nathan com Elena consegue construir um alto nível de intimidade entre as personagens e o jogador. É a construção cénica e a atenção ao detalhe: a carpete, a desarrumação doméstica, os artefactos de aventuras anteriores espalhados no sótão. São detalhes como Nathan a pegar na câmara e a ver as fotografias de férias passadas, a pentear-se quando passa à frente do espelho e a dimensão orgânica de duas personagens que jantam juntas e têm um discurso tão relacional.

Poderiam ser apenas personagens de um videojogo e um bom momento de diálogo, mas são mais do que dois esqueletos digitais. São duas personagens a quem o jogador se apegou e com um trabalho de animação e atuação que lhes conferem uma vida raramente vista num jogo. Todos estes elementos pintam um ambiente aconchegante, calmo e relaxante. É um hino ao storytelling digital, sem necessitar de narrador ou explicação contextual.

É, também, um contraste com tudo o que está para vir. O ressurgimento de Sam Drake, irmão de Nathan desaparecido há 15 anos, traz com ele a aliciante missão de encontrar um tesouro de um pirata avaliado em 400 milhões de dólares. É aqui que Drake não consegue resistir e, depois de uma mentira oportuna a Elena, junta-se a Sully e Sam para se lançarem em mais uma aventura.

Jogabilidade inigualável

Uncharted 4 conta a história de um Nathan mais experiente, maduro e responsável (sem nunca se desfazer das suas clássicas linhas e desabafos humorísticos). O capítulo introdutório oferece uma camada caseira e mais profunda da personalidade de Drake e, ainda que seja um jogo com violência, é mais “contido” nesse sentido.

De facto, Nathan não pega numa arma durante um bom terço da campanha e, quando o faz, é num momento muito tenso de autodefesa. Parece mais “merecido” e desculpável, quando comparado com entradas anteriores da saga, em que a tendência para disparar sobre todos os adversários ia um pouco contra a construção da personagem.

Esta contenção em oferecer armas para as mãos de Drake (ainda que não tenha influência nenhuma no arsenal inteiro que tem à sua disposição com o desenrolar do jogo) é complementada com novas mecânicas de stealth. Agora, o protagonista não se vê constantemente envolvido em tiroteios com inimigos que parecem não ter fim e, em muitas ocasiões, pode escolher o caminho “silencioso” e evitar chamar a atenção dos adversários, eliminando um a um de forma silenciosa, ou – com alguma habilidade – passando sorrateiramente sem ser detetado.

Os mapas mais abertos e menos lineares, bem como a adição do novo gancho, trazem maior verticalidade e potencial de exploração aos mapas. A vertente de saltar entre plataformas em modo de exploração ou para fugir a inimigos atinge o seu auge em Uncharted 4, agora que o gancho retira a necessidade de estar à distância de um salto do próximo obstáculo.

Os mapas mais abertos e a adição do novo gancho trazem maior verticalidade e potencial de exploração.

Todo a jogabilidade está perfeitamente calibrada. O movimento e o platforming são fluidos e gratificantes e as animações são orgânicas e credíveis, algo que só é possível quando se tem os melhores animadores do mercado. É também porque grande parte do diálogo mais interessante está nas fases de exploração ou nas travessias de carro ou debaixo de água – que mais uma vez estão impecavelmente animadas e implementadas – que é um prazer acompanhar estes personagens até nos momentos de menor ação.

Um grafismo fenomenal

A primeira coisa que salta à vista é a apresentação do jogo. É uma sensação estonteante “entrar” na casa de Nathan e Elena e ver materializada uma vida nas paredes, arrumação, estantes e armários, com uma atenção ao detalhe que é muito rara neste meio.

O jogo tem sempre paisagens incríveis para nos mostrar, desde praias a catacumbas, mas não passa apenas por uma questão de resolução e de texturas. Toda a iluminação, artstyle, conversas, sons de armas, gritos e banda sonora criam um ambiente credível e imersivo que, de forma muito inteligente e subliminar nos guiam na direção certa.

Mas é a atenção ao detalhe como a água a chapinhar, os cabelos a esvoaçar e a expressão facial incomparável que contam uma história por si só, criam um lugar e dão uma dimensão cinematográfica superior a qualquer outro dos episódios da série.

Um dos jogos mais evoluídos graficamente, até à data.

A junção de todos estes elementos deixaram-nos arrebatados desde o primeiro momento. De facto, o jogo brilha pela sua jogabilidade, no entanto, graficamente está também noutra liga. Ainda que limitado pelos 1080p de resolução e 30 frames por segundo, é certamente dos jogos mais evoluídos graficamente até à data.

Multijogador polido e divertido

Não é, assumidamente, o componente principal do jogo, mas a Naughty Dog seria incapaz de entregar um produto incompleto e por polir aos seus fãs. Ao contrário da contenção positiva e algum realismo que aplicou na história Single Player, o modo multijogador é um caos completo.

A qualidade da jogabilidade no uso de armas é perfeitamente transportado para as mecânicas de jogador. Cada item do arsenal tem sons, gráficos e calibrações próprias da arma, conferindo uma identidade própria a cada objeto e muita variedade de escolha. Para além disso, os jogadores encontram aqui um sistema de “mysticals” que lhes dá super-poderes durante um pequeno período de tempo.

Para manter o fluxo de jogos e a vontade de competir, a developer criou um sistema de progressão e evolução. Há muitas armas, roupas e danças de provocação para desbloquear e personalizar as suas personagens, o que certamente os fará jogar durante muitas horas após acabar a história principal – onde se encontra a verdadeira magia de qualquer Uncharted.

O melhor fim que um ladrão poderia ter

O último grande desenvolvimento da Naughty Dog foi com The Last of Us, um jogo que venceu muitos prémios da indústria e que foi o pináculo da PS3. Há poucas empresas que se adaptam e sobrevivem tão bem à mudança de hardware e a novas gerações de consolas. A Naughty Dog é uma delas.

Uncharted 4 provou, mais uma vez, que estamos a falar dos melhores de entre os melhores naquilo que fazem: criar um mundo e personagens envolventes, gráficos soberbos e uma jogabilidade gratificante.

Este é um jogo que brilha em todas as suas componentes. É uma história que é contada através de diferentes meios, e que consegue manter a adrenalina e o interesse constante, com momentos de suspense a cada esquina. Mas é um jogo que não tem medo de meter o pé no travão e aproveitar da melhor forma as cenas mais calmas e íntimas das personagens. De facto, muitos dos melhores momentos acontecem quando as armas se calam e o pó assenta.

Um jogo que brilha em todas as suas componentes.

É um mundo em que tudo foi desenhado com paixão pelo produto final, em que tudo soa bem e é visualmente fantástico. É uma história íntima e pessoal de um personagem que sempre se guiou apenas pelo seu instinto de aventureiro. É uma história de introspeção que nos deixa a pensar.

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