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Redes sociais:

Diz-me quantas estrelas tens, dir-te-ei o que podes fazer

O fundador do Facebook, Mark Zuckerberg disse um dia que quanto mais transparente fosse a vida de cada um, melhor seria a vida de todos. E, nessa transparência, claro que as redes sociais - e a rede social criada por Zuckerberg em particular - teriam uma palavra a dizer, tornando todo e qualquer momento partilhável, escrutinável, público.

Hoje é provável que o fundador da maior rede social do mundo ocidental pense duas vezes antes de repetir a mesma frase. Aliás, foram várias as vozes que o lembraram dessa ideia no ano em que o Facebook teve de admitir publicamente que algo tinha corrido mal naquele que é hoje o maior “país” do mundo em número de “cidadãos”: são 2,2 mil milhões de pessoas no mundo inteiro registadas no Facebook.

Se é verdade que o escândalo da Cambridge Analytica trouxe à discussão pública problemas sobre os quais se especula há pelo menos dois anos - desde que o Brexit e as eleições americanas, ambos em 2016, trouxeram para cima da mesa um lado menos “transparente” da rede - é injusto assumir que é tudo “culpa” do Facebook. Filósofos, psicólogos, escritores, entre outros, têm colocado outras questões incómodas sobre este novo espaço público. Até que ponto é que a privacidade deixou de ser - realmente - importante? Até que ponto as redes sociais nos tornaram menos disponíveis para discutir ideias e aceitar os outros? Estamos ou não mais sozinhos nesta aparente sociedade em comunicação 24/24 horas?

A estas questões soma-se um tema especialmente sensível que se prende com a aceitação social e necessidade de ser “gostado” e “aprovado”. A sociedade do “like” está não só refém de uma permanente validação, como usa cada vez mais os processos de validação em rede para fazer juízos de valores sobre as outras pessoas, locais, ideias, preferências. Pense, por exemplo, em algumas rotinas como escolher um restaurante, planear uma viagem ou simplesmente decidir que filme ver. Nunca como hoje tivemos tantas ferramentas para nos dizer o que os outros pensam e em função disso estabelecer um ranking de melhores e piores. Claro que os outros nunca são “todos” e, em muitos casos, a suposta transparência desta avaliação é, na realidade, manipulada pela compra de “likes” ou pela utilização de “bots” que se comportam como se fossem pessoas reais a emitir uma opinião.

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Todas estas questões trazem muitas perguntas ainda sem resposta, mas, na China, o governo está a dar um passo em frente usando precisamente as redes sociais. Quem viu o primeiro episódio da terceira temporada da série Black Mirror vai encontrar uma estranha semelhança com o relato seguinte – e, sim, é mais que uma coincidência. A China tem em curso um sistema de “crédito social” que irá agregar até 2020 dados sobre os cidadãos do país. De onde vêm esses dados? Sobretudo de aplicações móveis que, num país com 1,4 mil milhões de habitantes, são usadas para variadíssimos fins, à semelhança do que se passa no ocidente. Em vez de Google e Facebook estamos a falar de apps como o Alipay da Alibaba, a potência mundial de comércio eletrónico que rivaliza com a Amazon, ou o WeChat, e a informação a extrair pode ir desde a capacidade financeira dos utilizadores, à forma como usam o seu tempo.

No episódio de Black Mirror, ter um lugar melhor no avião ou conseguir um emprego dependia da pontuação que cada cidadão tinha, resultante das suas interações sociais medidas em permanência. A obsessão por essa pontuação traçava o percurso à protagonista - e mais não vamos contar, porque não gostamos de spoilers e esperamos convencer-te a ver. Na China, o projeto de ranking social pode ter impacto em compras importantes na vida das pessoas - como a que é determinada pelo crédito para compra de casa - mas é apenas uma entre as muitas aplicações possíveis.

Talvez não pensemos nas aplicações que nos trazem o carro até ao sítio onde estamos ou a refeição pronta a comer à nossa mesa como redes sociais - mas é isso que também são e não é preciso ir à China para perceber que cinco estrelinhas é melhor que uma estrelinha, que pode ser muito má e ter consequências. Também é transparência – como desejava Zuckerberg – e também é uma forma de premiar mérito.

Então em que ficamos? Queremos ou não ser medidos pela nossa “reputação social”? Ora aí está uma boa discussão para se agendar para dia 30 de junho, o dia em que se assinala o Dia Mundial das Redes Sociais.



E tu, o que pensas sobre isto?

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